COMING SOON - - - MAY 2021: MY KARITSYE BY ERIC ‘1KEY’ NGANGARE ---  JUNE 2021: IZIBONGO BY PRINCESS ZINZI MHLONGO --- JULY 2021: Ídúna Dúrà (The Negotiation) BY JUMOKE SANWO - - - AUGUST 2021: ART BLOOMS IN UNCERTAINTY BY OMNIA SHAWKAT - - - OCTOBER 2021: NEW ORDER FUTURE(S) 0F SPECULATIVE/ ARCHIVES BY ALI AL-ADAWY - - - NOVEMBER 2021: YASMIN BY ZOUBIDA MSEFFER
 





ESSAYS

MARIA GABRIELA CARRILHO ARAGÃO


TRAVESSIA


In loving memory of my great-aunt Tia Fato, travel companion, talisman (Fátima Mamudo)

Em memória da Tia Fato, companheira de viagem, talismã (Fátima Mamudo)

 
Desembarque na Ilha do Ibo / Disembarking in Ibo Island (Author Unknown, from the UEM-FAPF Archive, 2001)




IMPRESSÕES DE VIAGEM

|

FIELD NOTES




PRÓLOGO

Passaram-se quase 20 anos desde que fui pela primeira vez à Ilha do Ibo para a estudar e visitar. Embora eu já não estudasse na Universidade Eduardo Mondlane – Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico (UEM-FAPF) na altura, aFaculdade generosamente aceitou que eu integrasse a equipa de pesquisa do seu projecto de registo histórico do conjunto edificado da ilha – em particular, da sua arquitectura doméstica – posteriormente publicado como Ibo: A Casa e o Tempo (Júlio Carrilho, Universidade Eduardo Mondlane – FAFP, Maputo, 2005).

Na época, fiz duas viagens consecutivas: a primeira, em Dezembro de 2001 como assistente de pesquisa, e a segunda, uns meros dois meses depois, para resolver um assunto de família com a minha tia-avó.

É esta segunda viagem que registo nestas páginas, um diário informal compilado por meio de fotos analógicas digitalizadas e impressões de viagem anotadas de memória.

Na época, não me ocorreu que algures no futuro, tornar-se-ia demasiado perigoso tomar novamente a rota Tandanhangue – Ilha do Ibo, devido à actual situação de insegurança na região, resultante das acções terroristas que se têm agravado desde 2017.

Eu simplesmente assumi que o Ibo seria eterno, porque os corpos ancestrais estão no cemitério, as antigas casas de família ainda lá estão (embora parcialmente em ruínas), e por aí fora.

Porém, ao contrário das nossas geografias emocionais, que permanecem intactas, o tempo e o espaço não são imutáveis.
PROLOGUE

It has been nearly 20 years since I first went to Ibo Island to study and visit. Although I was no longer at Universidade Eduardo Mondlane – Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico (UEM-FAPF), they were kind enough to let me integrate into the research team for their archival project concerning the built environment of the island – in particular, its domestic architecture – later published as Ibo: A Casa e o Tempo (Júlio Carrilho, Universidade Eduardo Mondlane – FAFP, Maputo, 2005).

At the time, I made two consecutive trips: the first, in December 2001, as student research assistant, and the second, barely two months later, to resolve a family matter with my great-aunt.

It is this second trip that is recorded in these pages, a loosely assembled travelogue of digitally scanned analogue photos and field notes jotted down from memory.

At the time, it did not occur to me that at some point in the future, it would be too dangerous to take the Tandanhangue - Ibo Island route again, due to the current volatile terrorist action in the region since in 2017. I simply assumed that Ibo would be eternal, because the ancestral bodies are in the cemetery, the old family homes of various relatives still stand (albeit partly in ruins) and so on.

But unlike our emotional geographies, which may be intact, time and place are not.


TRAVESSIA TANDANHANGUE – ILHA DO IBO

IIlha do Ibo: O Forte / The Fort (2002)



CABO DELGADO, MOÇAMBIQUE.

A travessia do continente para a Ilha do Ibo faz-se a partir de Tandanhangue, uma localidade costeira perto de Quissanga, no Oceano Índico.
Tandanhangue situa-se a cerca de quatro horas de viagem de carro a partir de Pemba, a cidade capital da província de Cabo Delgado. Uma estrada que é principalmente de terra batida, com desníveis súbitos e troços alagados na época das chuvas.

As embarcações à vela, designadas lancha (Português) ou n’galaua (Kimwane), são táxis aquáticos que transportam cerca de 20 passageiros e carga diversa.

À mercê das marés, é preciso esperar pela altura certa, para que a embarcação possa aproximar-se da costa, cortando pelo mangal. A janela de oportunidade é pequena.

Em Tandanhangue, um embondeiro-tecto serve de abrigo durante a espera.
A espera pode ser longa, e a hora de partida incerta.

O antigo pontão há muito que desapareceu, engolido pelo mar, pelo que os passageiros e a carga são levados a bordo pelos tripulantes do barco, os naodas; levados a braços, literalmente.

Depois, há que manobrar a embarcação para a saída do mangal.
O tempo urge.

Já no mar, uma viagem tranquila que sossega a alma, e alimenta o espírito.

Cerca de hora e meia depois, avista-se a Ilha do Ibo: o forte, o antigo pontão.

Desembarcamos num dos extremos da antiga Vila do Ibo, hoje largamente em ruínas. Habitada de memórias e de espíritos, rodeada pela vida dos novos bairros.

Por eles viemos, os espíritos.
CABO DELGADO, MOZAMBIQUE.

The crossing from the continent to Ilha do Ibo is done from Tandanhangue, a coastal village outside Quissanga, on the Indian Ocean. Tandanhangue is about four hours away by car from Pemba, the capital city of Cabo Delgado Province, in the north of the country. The road is primarily of compacted read earth, with sudden dips and rises and the occasional flooded stretches during the rainy season.

The transport boats, named lancha (Portuguese) or n´galaua (Kimwani), operate as sailing water taxis that transport an average of 20 people and diverse cargo. At the mercy of the tides, it is necessary to wait for the right time for the boats to approach the land, cutting through the mangrove. The window of opportunity is small.

In Tandanhangue, a baobab tree-roof shelters the travellers during the wait, which can be long, the departure time uncertain. The old wooden pontoon is long gone, swallowed by the sea, and so both passengers and cargo are carried onboard literally in the arms of the ship’s crew, the naodas.

Once all onboard, the manoeuvring begins, to steer the boat towards the mangrove exit and out to sea. The timing is urgent and precise. Once out into the open sea, tranquillity soothes the soul, feeds the spirit.

About an hour and a half later, we can suddenly see the island in the distance: the fort, the old pontoon. We disembark on the southern end of the old Ibo Village, today mostly in ruins. Inhabited by memories and spirits, surrounded by the life of the new neighbourhoods. 

It is they we´ve come here to meet, the spirits.


Tandanhangue: A Espera (2002)

A ÁRVORE-TECTO

Janeiro, calor.

Que tal seria, contemplar o embondeiro como elemento arquitectónico?
Os componentes estão lá: as raízes, fundações. O tronco, pilar-mestre. Os ramos e folhas, cobertura.
A árvore como abrigo ideal, providenciando sombra e frescura durante a espera indeterminada pela chegada do barco.
Ao redor, o comércio de essenciais: chá e bebidas frescas, fruta, bolachas.

Tandanhangue: The Wait (2002)

THE TREE-ROOF

That January heat.

What if one regarded the baobab-tree as an architectural element?
The constituent parts are there: the roots as foundation, the trunk as master-column, the branches and leaves as roof cover.
The tree is the ideal shelter, providing a cool shade during the uncertain wait for the arrival of the boats.
Around us, essential goods for sale: tea and cool drinks, fruit, biscuits.


Embarque: Naodas (2002)

NAODAS

Marinheiros, bagageiros, guias.

Por eles somos carregados para aceder à n’galaua (embarcação), devido à ausência do pontão desaparecido pelo mar.
Com a sua perícia se manobra a saída do mangal, e mais à frente, à chegada do Ibo, se negoceia a passagem por entre bancos de areia.
Navegantes, as suas roupas confundem-se com o azul e o branco-céu, numa harmonização cromática, talvez acidental, com o ambiente do ganha-pão.
Dia-sim, dia-sim.



Boarding: Naodas (2002)

NAODAS

Sailors, porters, guides.

It is they who carry us in their arms to board the n´galaua (boat) since the sea has long disappeared the wooden pontoon.
It is their skill that manoeuvres the boat towards the mangrove exit and later negotiates a path through the sandbanks upon arrival in Ibo.
Seafarers, their clothes match the blue-white sky, an accidental chromatic harmony with the environment which earns them their daily bread.
Day in, day in.






Quirimbas: Mar Aberto / Open Sea (2002)






AZUL

No azul irreal do céu-mar, a linha do horizonte ancora a realidade.
Aqui e ali, uma outra n’galaua de pescadores e ilhéus, memórias da terra firme.
No marulhar das ondas, um universo sonoro que é também espaço físico.


BLUE

Amidst the unreal blue of the water-sky continuum, the horizon anchors reality.
Here and there, other fishing n´galaua and islets, memories of terra firma.
In the soft splashing of the waves, a sonorous universe that is also a place.
Antiga Vila do Ibo: Marco(2002)

DESEMBARQUE

Devido à presença de bancos de areia, a embarcação aproxima-se da Ilha desenhando um suave ziguezague, como se a cortejasse.
Pouco depois, chega-se a um dos extremos da Vila do Ibo.
Desembarcamos, novamente sem pontão, carregados a braços pelos naodas.
No ar, o silêncio insular, porém não desconfortável: há vida, só que não se vê. Porque chegamos no pico do calor (11h-15h00), durante o qual os habitantes se mantêm ao abrigo das casas.
Para nós visitantes, uma chegada que é um começo.
The old Vila do Ibo:Landmark(2002)

DISEMBARKATION

Due to the presence of sandbanks, the boat approaches the island slowly, in a soft zigzag, as if courting her.
A little while later, we arrive at the southern end of the old Vila do Ibo.
We disembark, again without a pontoon, carried by the naodas.
In the air, that insular silence, albeit not uncomfortable: one senses that there is life close by, albeit unseen. Because we arrived during the peak heat hours (11am - 3pm), a time when the island residents remain indoors, resting.
For us visitors, the arrival heralds a beginning.


Antiga Vila do Ibo: Ruínas (2002)

ANTIGA VILA DO IBO

A antiga Vila está praticamente deserta, e em ruínas.
Casas de dono, fechadas e abandonadas.
Todavia, estranhamente expectantes. 
Talvez pelos bons ossos que têm, ou talvez, pelos degraus intactos, a convidar o acesso às varandas elevadas, platéias domésticas para o palco outrora quotidiano das ruas principais.
Ruínas habitadas de memórias e espíritos, onde até a vegetação aguarda deferimento para crescer, de tão escassa.


The old Vila do Ibo: Ruins (2002)

THE OLD VILA DO IBO

The old village is practically deserted, and in ruins.
Houses that have owners, and yet are closed and seemingly abandoned.
Nevertheless, strangely expectant too.
Perhaps because of their good bones, or their intact front steps, inviting access to the raised verandas, domestic viewing stands to the once quotidian stage of the main streets.
Ruins inhabited by memories and spirits, where even the vegetation awaits deferral to grow, so sparse it is.




Vila do Ibo: Caminhos / Pathways (2002)



CAMINHOS

Saíndo dos limites da antiga Vila, há caminhos bem frequentados, com vegetação luxuriante e variada, convidativos.
Um dos caminhos passa pelo cemitério muçulmano, e mais além, termina no cemitério cristão. Nos cemitérios, uma prece e uma invocação, entre campas antigas.

Um regresso, que anunciará a partida.


PATHWAYS

Outside the limits of the old village, there are well-trodden paths, beckoning us with lush and varied vegetation.
One of the paths goes past the Muslim cemetery and ends further along on the Christian cemetery. In the cemeteries, a prayer and an invocation, among the ancient graves.

A return that will signal our departure.



POSFÁCIO


É sobretudo da serenidade que me recordo, de uma certa qualidade de som. Sem gritos ou chamamentos, sem música alta ou cânticos. Apenas aquela qualidade difusa de lá estar e pouco ouvir. Porque há uma prioridade de som quando nos encontramos numa ilha pequena: primeiro o rítmico marulhar das ondas, e de seguida tudo o resto, amortecido.

Na primeira viagem, essa serenidade fora quebrada pelo canto vulgar de um galo ao amanhecer. Assustou-me, o galo, pois mal dormira com as histórias de djinn que o guarda tinha contado depois do jantar. E se me viessem cumprimentar, os ancestrais? Na época, a ilha funcionava com geradores a diesel, que eram desligados prontamente às 22h. Eu tinha não-dormido apertando uma lanterna contra o peito, depois de a vela se extinguir.

Esta segunda viagem foi diferente. Desta vez, estava com minha tia-avó e dormia como um bebé ao seu lado. Sem sonhos, nem pesadelos. Apenas com o som distante do mar e as suas orações matinais, embora delas não me recorde com precisão. Ela era como um talismã, uma presença calma e serena. A irmã mais nova da minha avó. Nascida na ilha, ela não precisava de falar muito para se comunicar, nem mesmo comigo. Talvez já pressentisse que esta viria a ser a sua última viagem em vida à ilha e, embora não fosse essa a intenção original, terá aproveitado para se despedir, comunicando silenciosamente com o local. Rezando, e ouvindo.

Alguns de nós têm a sorte de conhecer a nossa ancestralidade, de poder traçar a nossa história através dos corpos que nos trouxeram ao mundo e daqueles que nos criaram, que deram e criaram espaço para nós. Esta tia-avó era especialmente querida porque foi tudo isso. Por vezes ficávamos com ela em sua casa, quando éramos pequeninos, nos anos pré-escolares. Até hoje, as suas filhas têm alcunhas especiais para mim. Daquela época, recordo-me sobretudo do cheiro dos retalhos de tecido com os quais às vezes brincava, empilhados no chão ao lado da sua velha máquina de costura de pedal. Vinte anos depois, era ela quem olhava por mim nesta viagem, e outros quinze se passariam antes dela ficar muito doente e deixar-nos durante o sono, não sem antes me dizer, algum tempo antes,

“Quem me dera ainda aqui estar para conhecer os teus filhos, quando vierem.”
END NOTE


It is the serenity that I recall best, a certain quality of sound. No shouts or callings, no loud music or chanting. Just that aural quality of being there and hearing little. For there´s a priority of sound when you are on a small island: the rhythmic sea first, then everything else, buffered, subdued.

On the first trip, it had been broken by the ordinary sound of a rooster at dawn. It had startled me; I had barely slept because the guard´s post-supper djinn stories had kept me up. What if they wanted to greet me, the ancestry? At the time, the island ran on diesel generators, which were switched-off at 10 pm without fail. I had slept-not clasping a flashlight to my chest after the candle went out.

But on this second trip, it was different. This time, I was with my great-aunt and slept like a baby, next to her. No dreams, no nightmares. Just the buffered sound of the sea and her morning prayers, although I don´t distinctly recall those. She was like a talisman, a calm, serene presence. My grandmother´s youngest sister. Born on the island, she didn’t have to say much to communicate, not even to me. Perhaps she had already sensed that it would be her last living trip to the island, and, although that wasn’t the original intention, took the opportunity to say her goodbyes in advance, silently communicating with the place. Praying, and listening.

Some of us are lucky enough to know our ancestry, trace our history back to the bodies that carried us and those that raised us, who held space for us. This great-aunt was especially dear because she did just that. We used to stay at hers sometimes as small children, pre-nursery school. Her daughters have special nicknames for me to this day. Of that time, what I recall best is the scent of fabric scraps on the heap I sometimes played with, next to her old pedal-action sewing machine. Twenty years later, she was still looking after me on this trip, and another fifteen would go past before she would get very ill and pass away in her sleep, not before telling me, sometime before that,

“I wish I could still be here to witness the birth of your children, when they come.”

















SOBRE O AUTOR
Maria Gabriela Carrilho Aragão nasceu, vive e trabalha em Maputo. É licenciada em Arquitectura pela Universidade do Cabo, onde foi também Tutora e Examinadora Externa. Exerce como arquitecta desde 2007 e ainda, ocasionalmente, como escritora, artista e curadora independente, usando os seus dons para habilitar outros, ajudando-os a clarificar e traduzir a sua própria visão criativa.

ABOUT THE AUTHOR
Maria Gabriela Carrilho Aragão was born, lives and works in Maputo. She has a degree in Architecture from the University of Cape Town, a profession she has practised since 2007, and has also been a Tutor and External Examiner at that same institution. Occasionally, she also writes, makes art, and designs functional objects, and uses her skills to enable others, helping them to clarify and translate their own creative vision.

︎: @gabitaaragao
︎: Linktree
www.mgcaragao.com

         





© COPYRIGHT 2021. ALL RIGHTS RESERVED.
The Archive of Forgetfulness is funded by the Goethe-Institut.